O Crescer e o CRESCER

Quer um aumento? Mude de emprego. Essa é uma expressão que tenho visto ser utilizada de forma frequente por alguns consultores de gestão de pessoas.

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Minha geração é a mais Colorada de todas. E sempre será!

É Hora de Abandonar o "Complexo de Vira-Lata" e Arregaçar as Mangas

Certos acontecimentos são cíclicos. Não importa a época, de tempos em tempos eles se repetem. Mudam um pouquinho aqui ou ali, mas preservam a mesma essência...

A Legião Urbana Vence Tudo. Até o Tempo.

A eternidade é o prêmio concedido àqueles que realizam feitos notáveis, únicos ou não, mas que são capazes de perdurar a ponto de serem lembrados por diversas gerações subsequentes...

"Cer" ou "Não Cer"

- Como esse pessoal da TI gosta de falar em certificações - disse um amigo que é consultor de RH. Tem lógica..

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Guia de Compra: Corsa GSi - O Foguetinho de Bolso da GM


Quem me conhece sabe da minha paixão por automóveis, em especial, os clássicos. Desde que me conheço por gente este já era o meu assunto preferido. Mesmo não tendo conhecimentos profundos de mecânica ou elétrica, sempre fui um apaixonado pelo universo automotivo e sua história. Acabei me tornando uma espécie de referência entre os meus amigos. Muita gente me procura pra conversar quando tem alguma dúvida a respeito do tema. Sou daqueles capazes que ficar horas seguidas conversando a respeito. Esses dias um amigo me comentou por e-mail: - por que tu não escreves ao no teu blog a respeito, já que gostas tanto e entendes do assunto? Então, resolvi colocar um primeiro post aqui. Eu acho que o tema merecia um blog só para ele, mas como este espaço não em foco específico, vou começar desse modo e ver como as coisas vão andar. Por isso, decidi iniciar com uma adaptação de um texto que escrevi há alguns anos para o Corsa Clube do Brasil (www.corsaclube.com.br), na época em que eu era um dos administradores nacionais do clube.

Eu sempre digo que o melhor carro é aquele que a gente tem hoje, porque foi adquirido, normalmente, a partir das nossas escolhas, que seguiram alguns critérios (prometo que escrevo sobre isso um dia). Mas, falando em termos de diversão, o carro mais legal que eu já tive foi um Corsa GSi 16v vermelho, ano 1994/1995, que ficou comigo por 5 anos exatos, até ser vendido para um comprador de São Paulo, que veio de avião buscar o carro e voltou dirigindo. Meu carro era seguramente um dos 10 mais inteiros e originais do país naquela época (2007). O comprador ter vindo de São Paulo para buscar o carro certamente corrobora para essa afirmação. Mas digo isso também respaldado pelo fato de ter muitos contatos oriundos das atividades do clube.

Infelizmente, chega um momento da vida em que precisamos abrir mão da diversão em detrimento da "vida adulta" e vendi o carro para terminar minha casa. A foto a seguir, foi a última que tirei dele, em frente ao cartório, no momento em que o passei ao novo comprador:


O que fazia ele especial, além de ser raro e estar impecável, era ele ser da primeira série lançada e de ter a própria General Motors do Brasil como primeiro dono nos documentos. Além disso, ele tinha um "irmão gêmeo", diferenciado unicamente pelo último algarismo da placa, e que consegui localizar em São Paulo, mas nunca mais vi. Depois de muito pesquisar, acabei descobrindo, extraoficialmente, que ambos os carros tinham sido usado em algumas matérias das revistas da época do seu lançamento. 

Eu comprei o carro porque sempre achei ele legal quando era mais novo. À época, ele custava três vezes o preço de um Corsa básico. Era um dos meus sonhos de garoto, juntamente com o Opala Comodoro Coupé Las Vegas e o Kadett GSi Conversível. Quando tive condições (?) de comprar um, me atirei. Foram cinco anos muito bons em termos de satisfação, mas também de aprendizado. No fim das contas, foi até saudável ter vendido o carro, dado o fanatismo com que eu já estava me relacionando com ele. Mas era justificável: o carrinho era muito bom! Andava muito e gastava pouco, tinha visual exclusivo, coisas que os puristas gostam. Era do tempo em que ainda se faziam versões esportivas de verdade no Brasil. 

E justamente por gostar tanto e conhecer bastante sobre o carro, muita gente me procurava na hora de comprar um. Queriam saber dicas, manhas, cuidados necessários, custos, essas coisas. Foi então que eu escrevi o guia a seguir, para ajudar a quem, como eu, é fã do modelo. Não sei se terei outro, dada a dificuldade em encontrar um que esteja em bom estado a um preço não extorsivo. Quem sabe um dia...

Então vamos ao que interessa: como comprar um Corsa GSi?



Apesar de ter sua produção interrompida em 1996, o GSi fascina os amantes de Corsa e de outros carros até hoje. E não é pra menos: seu desempenho, beleza e economia transformaram-no em um ícone da sua época, onde o conceito de carro esportivo nacional de verdade ainda existia. O fato de ele ser ainda hoje um carro desejado, respeitado e até cultuado, faz com que muitas pessoas procurem-no em lojas e anúncios classificados. Porém, por se tratar de um carro já com certa “idade” e com o detalhe de ser um esportivo, muitos desistem de comprá-lo ou por medo do seu real estado de conservação ou porque não possuem informações suficientes para realizar uma boa compra. E essa falta de informação pode levar a uma compra equivocada, fazendo com que o proprietário possa se arrepender mais tarde.

Essa preocupação pode ter sentido, mas não se o carro for realmente bem cuidado. Para quem conhece, sabe que o GSi tem uma mecânica muito boa e confiável, que, embora exija alguns cuidados, não representa uma ameaça ao comprador se o carro estiver em bom estado. Pelo contrário, a satisfação dos donos de Corsa GSi, mesmo com o preço de peças e manutenção, é muito grande. Quem tem, geralmente não pensa em vender.

Neste artigo, tento dar um auxílio àqueles que procuram um Corsa GSi para comprar e que talvez não conheçam alguns detalhes sobre o modelo. Detalhes estes que podem representar um grande negócio ou uma grande roubada, se o comprador não souber o que está adquirindo. Até por que se trata de um carro cujos acessórios e mecânica em geral custam caro quando não são bem cuidados. E são caros devido à exclusividade em relação aos demais modelos da linha Corsa e porque muitas peças são importadas.


1 – Características Principais do Veículo:

É importante saber por que o Corsa GSi é tão procurado e adorado. Para isso, basta listar algumas das suas características e especificações.

O Corsa GSi tem motor 1.6 de 16 válvulas, capaz de gerar 109 cv de potência a 6.200 rpm. Pode acelerar de 0 a 100 km/h em pouco mais de 9 segundos. Embora tenha pouco torque em baixa rotação (como todo 16v), o giro do motor sobre muito rápido e o carro simplesmente vira um foguete. A sensação de dirigibilidade esportiva é acentuada pelo comando de válvulas exclusivo e pela relação de marchas, que o deixa ainda mais esperto. A relação de marchas do GSi é a seguinte:

1ª – 3,73:1
2ª – 2,14:1
3ª – 1,41:1
4ª – 1,12:1
5ª – 0,89:1
Ré – 3,31:1

Embora o carro esbanje potência em alta, ele é incrivelmente econômico. Um carro original faz cerca de 12 km/l na cidade e 16 km/l na estrada. Sua taxa de compressão é alta para um motor movido exclusivamente à gasolina: 10,5:1. O motor é um Ecotec 1.6 16v, transversal e dianteiro, produzido pela GM da Hungria e trazido para o Brasil quase sem alterações. Aliás, o carro inteiro é praticamente igual ao europeu de mesmo ano.   


Ele vinha de fábrica completo, com ar condicionado inteligente (que não rouba a potência do motor) e sem CFC. Outros itens de série são: direção hidráulica, vidros e travas elétricas (com alarme na chave) e freios a disco ventilados na dianteira com ABS. Como acessórios de série, ele conta com bancos esportivos semelhantes aos Recaro, com padrão exclusivo em tecido navalhado. 

As laterais internas são revestidas do mesmo tecido. Outro item de série são os cintos de três pontos e encostos de cabeça vazados nos bancos dianteiros e traseiros, além de regulagem de altura para o banco do motorista. Por fora, existe um kit aerodinâmico completo: saias laterais, para-choque dianteiro exclusivo, com faróis de neblina integrados, aerofólio traseiro e rodas de liga-leve, também exclusivas, com pneus 185/60 R14. A ponteira de escape também é feita só para essa versão. 

Como opcionais, apenas teto-solar de acionamento manual, CD player, e indicador de tripla função no painel. Mas esses opcionais eram quase itens de série: pouquíssimos exemplares saíram sem estes acessórios (exceto o CD player).


2 – Procurar o Carro Certo:

Agora que já se tem uma breve noção do que é o carro, é hora de iniciar a busca. Primeiramente, o interessado em comprar um Corsa GSi deve saber como encontrar o carro certo. Esse primeiro passo talvez seja o mais importante, portanto deve ser feito com muito cuidado. Tenha em mente que é um carro de manutenção cara e que fica ainda pior no caso de ter sido mal cuidado.

Como já mencionado, todo carro esportivo carrega consigo a marca de ter sido maltratado pelo(s) antigo(s) dono(s). Infelizmente isso se confirma na maioria das vezes, seja lá qual carro esportivo você desejar comprar. Por isso, ao procurar o seu Corsa GSi, tente fazê-lo com um conhecimento prévio mínimo ou indicação de pessoas que conheçam a procedência do carro. Evite comprar o carro em lojas de automóveis usados, que, muitas vezes, fazem uma “maquiagem” ou até adulterações para esconderem defeitos. E defeitos escondidos em um carro de manutenção cara são um bom motivo pra se preocupar.

Dê preferência para carros particulares e dos quais você já conheça a história e o comportamento do dono. Avalie bem se todas as características originais do carro estão preservadas e se seu estado de conservação e mecânica estão em dia. Desconfie de quilometragem muito baixa (lembrem-se, os anos de fabricação do carro vão de 1994 a 1996!). Ao mesmo tempo em que isso pode significar uma joia rara, também pode ser uma bomba-relógio. Procure fazer uma avaliação mecânica aprofundada antes de comprar. Esse ponto é importante, pois pode mostrar possíveis defeitos de conserto caro e evitam que você cometa um engano.


3 – Analisando a Mecânica:

Se você encontrar o carro aparentemente certo, é bom fazer uma revisão geral na mecânica antes de optar pela compra. Já mencionei que algumas peças são caras e, portanto, os gastos que puderem ser evitados com isso já ajudam bastante. Muitas vezes, com o preço de algumas peças, daria pra pagar até o seguro do carro. Portanto, não deixe de avaliar esse quesito!

Comece pelas peças básicas de manutenção. Dê prioridade para a correia dentada e os esticadores/tensores. Caso um deles esteja com problema, você corre sério risco (como em qualquer carro 16v) de gastar muito dinheiro pra arrumar cabeçote e válvulas estragados em decorrência de quebra da correia dentada. Dependendo do estrago, pra pagar o conserto e não ficar no prejuízo total, você teria que vender o carro. A correia dentada pro GSi não é difícil de achar, mas custa bem mais que uma correia de Corsa 8v. Mas nada que não justifique o gasto. Se essas peças não estiverem em ordem, negocie a troca delas com o dono. Isso é fundamental. Vale a pena estar com elas em dia!

Da manutenção básica também não se pode esquecer os discos e pastilhas de freio. Como são discos ventilados especiais (na frente apenas), também custam caro. Mas se você procurar fora das concessionárias, também consegue um preço bem mais em conta. O ar condicionado, quando não funciona, também costuma ser um problema bastante chato de se resolver num carro dessa idade, embora não seja tão caro. Mesmo assim, é bom verificar se está tudo ok com ele.

Agora vêm os itens mais caros: sistema de injeção, bomba de ar secundária, válvula EGR e sistema ABS. Para se ter uma ideia, caso todos esses itens estejam com defeito e precisem de reposição, o valor disso já alcançaria o  do próprio carro. Dessa forma, preste bem atenção a qualquer defeito neles.


3.1 – Bomba de Ar Secundária:

Serve para auxiliar na estabilização e regulagem da marcha lenta, quando o carro está com motor frio. Fica em ação de 1 a 3 minutos após a ignição. É possível identificar sua ação por meio de um assovio contínuo que é emitido logo após ser dada a partida no motor. Durante esses 1 a 3 minutos com o assovio, o giro do motor fica mais alto, voltando a estabilizar logo após, quando a bomba desliga. Já vi casos de carros rodando sem ela, muitas vezes por ser cara e os donos não terem investido no conserto. Mesmo assim, não se pode saber qual era a real intenção do antigo proprietário que a retirou. Portanto, certifique-se de que ela exista e que esteja funcionando.
Abaixo, segue uma ilustração da bomba e a sua localização o cofre do motor: 







3.2 – Válvula EGR:

Essa válvula é considerada o “calcanhar de Aquiles” do Corsa GSi. Cerca de 70% dos modelos vendidos apresentaram defeito nessa peça. A função da EGR é retirar os gases com nitrogênio do escape e jogar na admissão (recircular), para controlar a emissão de poluentes. Se estiver com defeito, pode fazer o carro bater pino em altas rotações. Custa caro, então é bom ter cuidado com ela. Essa peça, juntamente com a bomba de ar secundária, não é muito fácil de encontrar fora das concessionárias. O principal sintoma de defeito é o carro morrendo em baixa rotação, principalmente durante as trocas de marcha.
Ela fica localizada atrás do motor, perto da borboleta, como mostra a figura a seguir.


Mas é importante dizer que a válvula EGR (ou válvula de recirculação de gases) não é tão problemática como se imagina. Na verdade, a culpa é da péssima qualidade da nossa gasolina. Vale lembrar que o motor usado no GSi brasileiro é o mesmo do europeu, portanto também roda por lá. Sendo assim, por que lá não apresenta esse problema? Simples: o que causa a falha na EGR é o seu entupimento. E isso só acontece quando ela carboniza. E a carbonização, por sua vez, é fruto de combustível de má qualidade. Como na Europa o combustível é bem superior em qualidade ao daqui, esse problema não ocorreu (ou quase não ocorreu) por lá.
O que muita gente não se dá conta ou não sabe é que na maioria das vezes não é necessária a troca dessa peça. Por isso, preste muita atenção quando algum mecânico disser que precisa trocá-la. Na maioria dos casos, basta descarbonizá-la e utilizar combustível de boa qualidade (gasolina Pódium, por exemplo). Mesmo assim, recomenda-se fazer uma descarbonização dessa válvula pelo menos uma vez por ano. Fazendo isso, você pode evitar ter de desembolsar os cerca de R$ 1.700,00 que pedem por ela nas concessionárias. Isso se você encontrar alguma loja que ainda tenha a peça.


3.3 – Sistema de Injeção Eletrônica:

Embora não seja um problema provável de ocorrer, é bom certificar-se de que todos os sensores da injeção eletrônica estão em ordem. A injeção do Corsa GSi é do tipo SFI (sequential fuel injection, ou injeção sequencial de combustível), usada nos principais modelos da marca de mesma época (Vectra "A", Calibra e Omega). Esse sistema é um dos responsáveis pela economia de combustível do carro. Estar com ele em dia também representa economia. Passe o carro num scanner para ter certeza de que tudo está funcionando corretamente.


3.4 – Sistema ABS:

Como todos sabem, o sistema ABS evita o travamento das rodas durante a frenagem. Esse sistema é de série. Todos os Corsas GSi têm esse recurso. O não funcionamento do sistema não atrapalha o desempenho normal dos freios (continuam funcionando como num carro sem ABS), mas sem o recurso extra do antitravamento. É do critério do comprador decidir se esse item é importante ou não. Pessoalmente, eu não abro mão. É muito fácil encontrá-lo dentro do motor. Como mostra a figura ao lado, ele fica localizado do lado direito do cofre. 





4 – Detalhes da Aparência do Carro:

Embora o Corsa GSi seja um carro bonito de série e dispense qualquer acessório estético, existem muitos por aí que sofreram transformações pelos antigos donos, pequenos retoques para disfarçar defeitos ou ainda perderam alguma peça original e o dono fez uma reposição com uma peça totalmente desconexa com resto do carro. Por isso, preste muita atenção a alguns detalhes de aparência que podem indicar o cuidado ou o desleixo do antigo proprietário.

A partir de agora, veremos alguns pontos do carro onde é mais comum serem feitas adaptações ou “gambiarras”, seja por gosto do próprio dono, seja para disfarçar possíveis defeitos.


4.1 – Cores:

Nosso Corsa GSi saiu em poucas cores, algumas presentes na Europa e outras não. Há raríssimos casos de carros trazidos do velho continente com outras cores, mas contam-se nos dedos de uma mão esses modelos, que possuem o símbolo da Opel. Qualquer um no Brasil que seja diferente dos anos e cores listadas abaixo, indica que houve repintura na lataria:

1995: Amarelo "Piquet" (o nome original não consta no catálogo da GM), Branco Mahler, Prata Rodin e Vermelho Bach; 


1996: Branco Mahler, Prata Rodin, Preto Liszt, Verde Rousseau, Vermelho Bach e Vermelho Goya.


4.2 – Estado Geral do Motor:

Não precisa ser tão especialista para saber se o motor do carro está ou não bom. É possível eliminar algumas possibilidades apenas abrindo o capô e olhando a aparência geral do motor do carro. Verifique se está limpo, sem manchas de óleo e se os plásticos e mangueiras apresentam desbotamento ou desgaste. O motor do GSi, originalmente, é assim:





Mas é possível encontrar motores de péssima aparência, como este: 





Um motor com aparência de velho e estragado tem muitas chances de realmente estar assim. Mas é bom não ir pelas aparências. Às vezes, pode parecer limpo e estar com problemas. Nesse caso, a observação é importante apenas para eliminar os casos mais “gritantes”. Para que se saiba realmente se ele está bom, verifique com o mecânico de sua confiança. 

Recomendo evitar carros turbinados, como o da foto ao lado. Um GSi já anda bem ao natural, mas tem quem goste de envenená-lo ainda mais. O resultado geralmente é um carro bastante desgastado. Além disso, não é um motor que qualquer um sabe turbinar, pois exige bastante conhecimento por parte do preparador. Você ainda corre o risco de pegar um carro turbinado que pode ter problemas no futuro por ter sido mal preparado. É melhor não correr o risco.



4.3 – Saias Laterais:

Estes são os itens mais alterados ou retirados do carro. Cada saia é fixada com 35 presilhas (cada presilha custa cerca de R$ 5,00) e é composta por seis partes (incluindo as molduras dos para-lamas dianteiro e traseiro, que são diferentes dos outros Corsas e mais caras também), o que desanima muita gente na hora de repor a original perdida ou danificada. O modelo original é como o mostrado na figura abaixo: 




Não existe Corsa GSi com outro modelo de saia lateral. O que acontece é que muita gente perde/destrói as saias originais e faz adaptações. Se o modelo for diferente do original, suspeite. Abaixo, um exemplo de tais adaptações. Repare na diferença desta saia para a original, já mostrada acima:



Outro fato comum é a perda das tampinhas das saias (aquelas que se retiram pra colocar o macaco e trocar o pneu), como as da figura abaixo. Dê preferência aos carros que tiverem o conjunto de saias original e completo, pois as peças são difíceis de encontrar, mesmo em concessionárias (cada tampinha custa em torno de R$ 50,00 sem pintura!). Se estiverem todas lá, significa que o dono foi cuidadoso e que não andou com o carro em terrenos muito ruins. 

  


 4.4 – Rodas:


Simples e direto: O Corsa GSi só saiu com as rodas iguais às mostradas na figura a seguir:



  
Se encontrar algo diferente, torça o nariz. Sabe-se lá o que aconteceu com as rodas originais... E se as rodas estiverem certas, verifique se as calotas centrais existem e se as rodas não estão arranhadas. As calotas centrais são de liga leve e não de plástico. Portanto, custam caro e nem sempre são repostas. Verifique também se a chave que retira as calotas está presente. Sem ela, ficará difícil abrir as calotas para desparafusar as rodas. Abaixo, exemplos de rodas diferentes ou sem as calotas centrais:   






4.5 – Para-choque Dianteiro:

Por ser caro, geralmente se opta por consertá-lo em vez de comprar um novo. Só que raramente o conserto fica bem feito, e é fácil de perceber o que foi feito de errado, pois os erros de quem conserta são sempre os mesmos. Talvez o mais comum seja pintar as entradas de ar da mesma cor do carro. Quem conhece o modelo, sabe que as entradas de ar do para-choque dianteiro têm as laterais com detalhes pretos e não da cor do carro, como pode ser visto no exemplo:





No entanto, é muito comum ver casos como este:





Esse tipo de “gambiarra” pode indicar um abalroamento dianteiro ou colisão que tenha exigido um reparo ou repintura no para-choque.

Outro erro muito comum nesse item é o spoiler emborrachado (ou simplesmente borrachão), que fica embaixo do para-choque dianteiro. O modelo original é de borracha, dividido em duas partes e preto, como mostra a foto: 





O que se faz em caso de problema, é deixar o carro sem essa peça ou então mandar fazer uma em fibra, que quebra com facilidade. Verifique de perto este item e veja se é realmente de borracha e se não está muito arranhado ou desgastado. Pra variar, o original é caro. Abaixo, seguem exemplos de peça de fibra ou de falta de borrachão: 





Embora não seja comum, alguns ainda trocam a grade frontal pela dos Corsa Wind, ou então pintam a mesma da cor do carro. A grade original do GSi é diferente das demais e, além disso, é preta, como mostra a foto:   




Mesmo assim, tem gente que pinta as grades, como nesse caso: 





4.6 – Teto Solar:

Embora seja raro, existem alguns GSi sem teto solar. O acessório era listado como opcional, mas a maioria dos carros fabricados vinha com ele. Se você ver um sem teto solar, não se assuste, não necessariamente é um carro capotado que recebeu outro teto. Mas dê preferência aos que tiverem o acessório, pois valoriza o carro e é muito bonito e funcional. Só não deixe de verificar se existe infiltração. O teto sempre foi bem vedado e situações de infiltração são raríssimas, mas é sempre bom cuidar esse aspecto. Para os que ainda não viram, segue a foto de um GSi sem teto solar: 




Outro detalhe importante: todos os Corsas GSi com teto solar têm esse equipamento com acionamento manual. Não existiu teto solar elétrico nesse modelo. Alguns proprietários adaptaram tetos elétricos de outros carros como Omega ou Vectra, devido à facilidade de adaptação. Mas não é original:







4.7 – Maçanetas:

Pode até ser bonito, mas nenhum Corsa GSi saiu com as maçanetas das portas ou do capô traseiro pintadas na cor do carro. São todas pretas. Um GSi com as maçanetas pintadas pode ter sido recuperado de algum acidente ou então pintado a gosto do dono. Não posso considerar isso um defeito, mas é bom verificar o histórico do carro, por via das dúvidas. 



4.8 – Detalhe do Retrovisor:

Outro ponto muito pintado pelos donos, mas que não faz parte da originalidade. Esse canto do retrovisor externo é preto, assim como as maçanetas. 





É comum encontrar retrovisores com esse canto pintado. Pode ser indício de gosto pessoal do dono ou então de algum acidente que arrancou o retrovisor, etc. De qualquer forma, averigue o que realmente aconteceu.


4.9 – Frisos Laterais:

O Corsa GSi não tem frisos laterais, como a maioria dos outros Corsas. Sua lateral é completamente lisa, sem frisos. Se você encontrar um com frisos, suspeite. Pode ter levado uma porrada na porta e ter sido consertado logo depois. Além da questão de recuperação de um acidente, a colocação do friso é imoral: é complicado imaginar que alguém teria um gosto tão ruim pra colocar frisos nesse carro apenas por vontade própria. A ausência de frisos é justamente um dos fatores que dá ao carro a sua identidade única, o seu grau de exclusividade em relação aos irmãos mais "comportados".
Veja como fica feio:





4.10 – Bancos:

Esse é um item que merece bastante cuidado. Embora muitos achem que sim, os bancos do Corsa GSi não são da Recaro. Imitam bem o formato, mas não são dessa marca. É bom que você avalie muito bem o estado dos bancos e estofamentos do carro, pois isso poderá indicar desgaste. Compare com o desgaste do volante e com a quilometragem. Se estiverem em bom estado, os bancos são deste jeito:





Porém, há quem não cuide dos estofados, e os deixam em péssimo estado. Procure descartar carros com estofados ruins, pois o tecido navalhado do acabamento interno (bancos e laterais) do Corsa GSi custa cerca de R$ 70,00 o metro. Embora tenham um tecido que dure bastante, não é raro encontrar estofamentos detonados como este:





Outra dúvida comum é em relação aos bancos de couro. O Corsa GSi nunca ofereceu bancos de couro, nem como opcional. Mesmo que alguns tenham esse acessório, não são provenientes da fábrica. Ou foram encomendados pelos primeiros compradores junto às concessionárias ou foram instalados posteriormente. Ficam bonitos, mas não são originais. Se sua intenção não é ser colecionador, nem precisa se importar com isso, pois o couro, além de bonito, valoriza o carro. Mas é bom informar que não se trata de acessório de série do carro. Veja um exemplo bem sucedido:  






4.11 - Faróis e Lanternas:

Muitos donos colocam os faróis do modelo 2000 nos seus Corsas de anos anteriores. No GSi não é diferente. Mas os faróis originais não são lisos e as lanternas traseiras não são aquelas com “bolhas” em relevo. A substituição pode, muitas vezes, indicar que o carro tenha sido batido, ou então apenas um gosto do proprietário. Certifique-se do motivo da troca, caso tenha ocorrido.
Abaixo, seguem exemplos dos faróis e lanternas originais: 
























4.12 – Logotipos (decalques):

Os logotipos originais do Corsa GSi não são fabricados desde outubro de 2003. Mas ainda é possível encontrá-los em algumas concessionárias ou no mercado paralelo. E o preço, para o logotipo “GSi16v” gira em torno de R$ 100,00 o par.
O logotipo original é este:




O preço, como se pode ver, é caro se for comparado com os dos decalques dos primeiros Astra GSi, que são bem parecidos e custam em torno de R$ 50,00 o par. Deve ser por isso que muitos compram esse logotipo para colocar no Corsa GSi. Com o logotipo do Astra, o carro fica mais ou menos assim: 





Encontrar um GSi com os logotipos originais e bem conservados é difícil. Os logotipos originais ficam pretos com a idade, se o carro for exposto ao tempo. Mas se encontrar um que ainda preserve esses logotipos em bom estado, pode ser um sinal de que o dono é caprichoso. Afinal, se investiu R$ 100,00 em logotipos originais é porque realmente gosta do carro e quer preservá-lo. Mesmo assim, avalie o estado geral do carro e não apenas esses itens.


4.13 – Painel do Carro:

Analisar o painel do GSi também é importante para que se tenha a garantia de uma boa compra. Procure ver itens como a quilometragem (já mencionada) e detalhes como a luz do ABS (lado direito) e da injeção eletrônica (lado esquerdo). Se elas permanecerem acesas após ser dada a partida no motor, pode indicar avaria nesses sistemas. Procure evitar carros com estes problemas, pois como já dissemos, vai sair bem caro arrumá-los. 




4.14 – Indicador de Tripla Função (TID) e Rádio:

O indicador de tripla função (TID), embora opcional, equipa 95% dos Corsas GSi. Ele fica logo acima do painel e sua função é indicar data, hora e temperatura (quando o rádio é ligado, a temperatura é substituída pela estação selecionada).
Veja: 




Existem alguns GSi sem esse acessório. O painel desses carros fica parecido com o do Corsa Wind: 




De série, o carro possui rádio toca-fitas, integrado ao TID, pois o toca-fitas não possui display próprio. O rádio original é este:   



Existem alguns modelos que possuem CD player. Esse acessório era opcional na época. Não está integrado com o indicador de tripla função, pois possui display próprio. O modelo é este: 





4.15 – Volante e Manopla:

No GSi, o volante e a manopla de câmbio são ótimos “dedos-duros”. A partir do seu estado de conservação, é possível saber se o carro sofreu desgaste excessivo e inclusive verificar visualmente se a quilometragem real bate com o hodômetro. Por serem de couro, com o tempo eles podem sofrer deformações. Em carros com muito desgaste nesses itens, mas com baixa quilometragem, é possível encontrar indícios de adulteração. O volante é o mais delicado. É nele onde os efeitos do tempo aparecem com maior intensidade.
Originalmente, o volante é assim:  





Mas, com o desgaste, ele pode ficar até desse jeito:





Evite carros nessas condições. É extremamente difícil de repor essas peças e também um pouco caro.


Bem, espero que essas dicas ajudem você a encontrar um Corsa GSi em bom estado e que não vá lhe causar aborrecimentos ou arrependimento. Pelo menos agora você terá uma boa base de conhecimento para saber o que é e o que não é original no carro, e avaliar se é ou não uma boa compra. Desejo que, com este pequeno artigo, os interessados em comprar esse lindo carro possam se defender de muitos oportunistas que tentam enrolar o consumidor na hora de fechar um negócio.

Vale aqui ressaltar novamente a importância de conhecer a procedência e o histórico do carro. É tão importante quanto observar as dicas aqui listadas. Pelo fato de o GSi ser o modelo mais desejado da linha Corsa, com maior custo de manutenção e com mais itens a se cuidar, achei que essa contribuição seria válida, ainda que simples.

Agora, é com você. Vá em frente, avalie bem o carro que deseja comprar e seja feliz com o seu Corsa GSi 1.6 16v!



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Ao Mestre Com Carinho


Muito tem se falado em educação ultimamente, tanto na televisão quanto na internet. Parece que as pessoas estão acordando para um tema que realmente é importante para a sociedade e cuja precariedade começa a apresentar resultados, refletidos na quantidade de analfabetos funcionais, violência no trânsito, falta de conteúdo e simplificação dos programas de televisão e mídia impressa, etc. Aqui mesmo no RS a rede de comunicação local resolveu promover a campanha "a educação precisa de respostas", basicamente, procurando entender por que o Brasil é o sexto país em termos de economia no mundo e apenas o octogésimo oitavo no ranking de educação. Embora de propósito nobre, não sei qual vai ser o resultado prático de tal campanha midiática. Ao menos, serve como reflexão. Se bem que, se a população não está educada satisfatoriamente, será difícil que a massa entenda a mensagem e reflita sobre do tema. Mas acho que estão tentando fazer a parte deles. Se a educação fosse uma preocupação permanente dos meios de comunicação, provavelmente a influência que eles têm poderia colaborar no sentido de fazer as pessoas pensarem mais em vez de assistirem novelas. Por outro lado, se a TV está fazendo isso é porque talvez os governos, teoricamente os principais responsáveis, não estão cumprindo com seu papel principal de investir na educação do seu povo.

O tema é bastante complexo, sem dúvida. Mas sabe-se que é pela educação que as nações saem do fundo do poço e tornam-se prósperas de verdade. Esse deve ser o começo de tudo. Não deve ser a única forma de reerguer a economia, logicamente, mas há de ser uma das principais. Já mencionei aqui que, em minha opinião, o problema está na qualidade de ensino muito mais do que na estrutura das escolas públicas (que hoje recebem mais verbas do que no meu tempo). E falo com a propriedade de quem tem uma esposa professora dentro de casa. Além das baixas remunerações, percebe-se que muitos professores estão desmotivados, sem vontade de dar aula, sem alegria em ensinar. Alegria e entusiasmo são quase 70% de um indivíduo que leciona. Sem isso, ele não busca a excelência, não se atualiza. E a qualidade do ensino em geral cai. Se até este básico lhe falta, para onde vamos? Como se não fosse o bastante, este profissional precisa lidar com a nova geração de pais, que terceirizam a sua parte na educação dos filhos aos mestres e ainda responsabilizam estes pelas baixas notas obtidas por suas crias. Não é à toa que o número de jovens que gostaria de seguir carreira de professor é cada vez menor. 

Ser professor, mais que um trabalho, deve ser encarado como uma missão. E das mais nobres. Acho que se você não encarar um pouco por essa perspectiva, nem vale a pena tentar entrar nessa carreira. Lembro-me de um episódio dos meus tempos de estudante que relata bem isso. O ano era 1997 e eu estava no quarto e último ano do segundo grau técnico do curso de Processamento de Dados. Era um ano bastante movimentado para mim. Tinha acabado de conseguir meu primeiro emprego com carteira assinada (já havia começado a trabalhar dois anos antes, mas como estagiário) e tive de passar a estudar à noite, haja visto que também o quarto ano só era ministrado neste período. Além das aulas e do trabalho, era o ano da formatura. Eram duas turmas de quarto ano e eu era o líder das duas. Era uma responsabilidade grande, mas eu tinha orgulho daquilo. Não apenas por representar duas turmas ao mesmo tempo (a divisão era apenas física, visto que todos se conheciam dos anos anteriores), mas porque ali estavam apenas os melhores. 

Deixem-me fazer um parêntese para explicar: Naquela época, o Mascarenhas de Moraes, em Cachoeirinha-RS, era uma das escolas técnicas mais conceituadas do estado, mais que muitas escolas particulares. Além do primeiro grau, tinha quatro opções de cursos no segundo grau, sendo três deles profissionalizantes. A partir do segundo ano (o primeiro era básico para todo mundo), podia-se optar por um determinado caminho. Além do curso básico, chamado de "Geral" pelos alunos, e que tinha como foco maior a preparação para vestibulares, a escola oferecia os cursos de Secretariado (predominantemente de público feminino), Contabilidade e também o de Processamento de Dados. Este último, além de possuir um ano a mais que os outros, tinha aulas aos sábados e era preciso fazer um teste de aptidão e raciocínio para poder entrar, não bastava querer. E foi neste que eu me enfiei. Por isso trabalho com TI até hoje... O caso é que o curso era considerado extremamente difícil pelos alunos da escola. Era comum ver o pessoal comentando pelos corredores: - Tu vais fazer PD? Dizem  que é para louco, que os alunos se matam estudando, etc., etc. Bem, depois de tanto tempo, posso dizer que era difícil, sim, mas não tanto para quem já pretendia trabalhar com TI, como eu. Mas é fato que, dos cerca de 150 alunos que iniciaram o segundo ano (divididos em 3 turmas), apenas uns 20 conseguiram terminar o quarto ano. Um verdadeiro funil.

No meio de toda essa correria, eu ainda tinha de me preocupar com os estudos, obviamente. O curso exigia dois estágios: um externo (que eu estava cumprindo no meu primeiro emprego) e outro interno, que consistia em desenvolver um sistema e entregá-lo ao final do ano. Eu e mais duas colegas (minha prima era uma delas), desenvolvemos um sistema de gerenciamento de uma farmácia, em Clipper (!). Nunca foi utilizado na prática, mas funcionava a contento e serviu para nosso aprendizado e aprovação. 

Dentre as matérias regulares da grade curricular do quarto ano, estavam as de "Análise de Sistemas" e "Banco de Dados", ambas ministradas pelo mesmo professor. Ele, aliás, trabalhava como DBA num grande banco estatal e dava aulas à noite, como fazia a maioria dos professores do curso. Ou seja, o magistério não era sua principal atividade. Mesmo assim, suas aulas eram das melhores e ele era extremamente capacitado. Talvez isso fosse exatamente um dos diferenciais do curso. Como a maioria dos professores tinha sua própria empresa ou trabalhava em bons cargos na área de TI, isso potencializava a experiência e o aprendizado dos alunos. Esses caras faziam isso pela missão de ser professor, uma vez que sua remuneração nos locais onde trabalhavam durante o dia era claramente maior. É um tipo de compromisso que pouco se vê hoje em dia.

As provas das duas matérias supracitadas costumavam ser bem difíceis, como não podiam deixar de ser, dada a relevância dos conteúdos. O professor era extremamente exigente também. Posso dizer que aprendi muito com as aulas dele, mas a sua principal lição não foi técnica, mas de caráter, daquelas que você nunca mais esquece. 

Naquele ano, além das mudanças na LDB (Lei de Diretrizes e Bases), que versaram sobre o valor médio da nota para aprovação, formatos de recuperação, etc., a escola também precisaria mexer na grade curricular para o ano seguinte. Com isso, as duas disciplinas mencionadas se converteriam em uma só, mas com igual carga horária. Na prática, mudava pouca coisa. Só que havia um componente crucial: como as duas matérias deixariam de existir, o aluno que fosse reprovado em apenas uma delas, por exemplo, não teria como cursá-la de novo no próximo ano, nem por dependência. E também não poderia cursar a disciplina unificada, pois estaria repetindo uma das matérias na qual havia sido aprovado no ano anterior. Certamente isso traria muitos problemas. O professor, que sabia disso previamente, manteve o ritmo das aulas como se nada estivesse acontecendo, sem revelar nada aos alunos. Estávamos tendo as mesmas aulas difíceis que todas as turmas anteriores haviam tido, sem nem imaginar que tais mudanças estavam a caminho. Eis que, em uma das últimas aulas do ano, ele chega para a turma e diz: - Pessoal, por conta dessas mudanças na lei e na grade curricular, não irei reprovar ninguém nessas duas matérias. Estão todos aprovados.

Naquele momento eu fiquei meio tonto. Não entendi porque ele não havia contado nada para a turma logo que soube. Depois, entendi tudo. Se ele tivesse contado no começo do ano que ninguém iria ser reprovado, certamente o grau de comprometimento da turma iria ser muito menor. O interesse nos conteúdos, idem. Haveria faltas em massa, ninguém faria as provas, mas, principalmente, ninguém aprenderia coisa alguma. Ele poderia simplesmente ter cancelado as aulas quando soube das mudanças, mas preferiu continuar vindo de outra cidade quase todas as noites para dar uma aula que não iria reprovar ninguém. Preferiu continuar as aulas como sempre foram, com o mesmo grau de exigência, e com a mesma dedicação. Naquele momento eu percebi  o quanto um professor, ainda que não fosse de carreira, poderia demonstrar o quanto estava comprometido com o aprendizado dos seus alunos. 

Sei que é complicado exigir o mesmo comprometimento de alguém que é mal remunerado e que só tem o magistério como fonte de renda (professores de carreira em geral). Porém, igualmente importante é ressaltar que o comprometimento com a educação também se dá por outros motivos, como este que relatei. Este episódio me inspirou, de certa forma, a acreditar nas pessoas com quem trabalho e a procurar não desistir delas, mesmo quando as coisas não vão bem. Assim como o meu professor, muitas vezes os líderes de equipe lidam com informações que não podem compartilhar num primeiro momento, mas que serão importantes mais adiante. O que faz a diferença é você jogar a favor do grupo. E é isso que eu tento fazer no meu dia-a-dia no trabalho, muito por causa daquela atitude me mostrou que sempre vale a pena tentar.

Obrigado, professor!


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Qualquer Semelhança não é Mera Coincidência

Vocês já notaram o desinteresse da população em geral pela política? O descrédito que a figura de um político tem? Pra mim, um dos aspectos que reforça esse cenário é a sensação de “eu não me sinto representado por essa pessoa”. Eles têm o papel de representar seus eleitores, porém, de maneira geral, o povo não consegue confiar neles (por alguns motivos bem óbvios). Mas os políticos de carreira continuam existindo porque, por falta de vontade, tempo, aptidão, conhecimento ou (situacional) capacidade, não assumimos uma postura que torne desnecessária a sua existência. Essa não é nem de longe uma constatação inédita, mas é possível perceber certas nuances semelhantes no ambiente de trabalho.

O Jarbas trabalha com TI. É analista de testes terceirizado em uma grande empresa (algo que "quase não se vê" por aí...). Ele se considera, até certo ponto, um pouco "peão". O seu negócio é implementar a coisa, é “sentar tijolo até levantar a parede”. Não tem muito skill de liderança ou negociação. Aliás, se tivesse de ficar negociando o tempo todo, ia perder tempo de trabalho. Não, ele não é um recurso alienado, um workaholic, etc. Simplesmente o foco do seu interesse é no “fazer”, e não no “fazer acontecer através de”. E é justamente por ter maior aptidão para atividades técnicas que ele se sente melhor em assumir um papel de alguém que “põe a mão na massa”.

Então, enquanto ele foca em fazer o que gosta de uma forma bem feita, ele precisa de alguém que resolva o resto. Seja por preservar energia e usá-la em outra atividade, seja por não ter aptidão para negociar de maneira eficiente, ele sabe que precisa de cobertura.
 

Atualmente, Jarbas está envolvido em fazer existir algo grande, um daqueles projetos de enorme importância. Se fosse algo em menor escala, dava conta sem problemas. Mas dessa vez, pra conseguir realizar o que é proposto, é necessário mais um grupo de pessoas com conhecimentos e capacidades parecidas com as dele, senão a coisa toda só vai ficar pronta daqui a anos. Então, enquanto ele e o grupo trabalham, precisam de alguém para resolver a questão da comunicação, do planejamento, daquilo que fica em volta do seu trabalho, mas que não é exatamente o seu trabalho. Ele e o grupo criaram a necessidade de existir alguém para gerenciar.

Então alguém assume formalmente esse papel. Maravilha. Tem alguém pra fazer a cobertura, pra complementar, pra prover o que mais é necessário para o trabalho acontecer. É um papel difícil, sem dúvida. Essa pessoa vai ter de ajudar a organizar o trabalho de todos, filtrar a comunicação com quem está precisando da solução que está sendo construída. Além do mais, vai ser o responsável por dar algumas notícias ruins de vez em quando. Mas também é um papel de destaque, vitrine mesmo. E é aí que está o perigo. Os responsáveis pelo elenco escolheram quem parecia ter perfil de liderança e experiência nessa atividade pra resolver essa necessidade.

Só que, dessa vez, falta algo para o cara que assumiu esse papel...

O time diz que precisa de mais prazo pra fazer direito, ele vem com uma explicação vazia de porque não vai dar. O time diz que faltam alguns recursos, ele fica tentando convencer todos pra simplesmente se virarem com o que tem. Se alguém fica aborrecido, ele tenta resolver a cara de aborrecido, em vez de resolver o que está causando o problema. A coisa está pegando fogo e o líder só fica botando panos quentes, dizendo “isso é assim mesmo” e coisas do tipo... Às vezes fica parecendo que ele só serve pra repassar (filtrando) algumas notícias que vem de cima, e pra dar um jeito de manter todo mundo ocupado.

Jarbas sente que, dessa vez o “líder formal” não o representa. E também não representa o resto do time muito bem.

Mas o cara gosta do papel de liderança, então fica tomando suas providências para continuar no posto. Que jogada! Ele troca o esforço de realizar aquilo que ia conquistar o apoio de várias pessoas abaixo dele pelo esforço de conquistar o apoio de duas ou três pessoas acima... E assim a equipe vai seguindo, sem acreditar muito no que está fazendo e sem motivação para tentar algo novo. Mas o líder vai fazendo o seu cartaz para com os gerentes logo acima dele. 


Mesmo tendo o trabalho elogiado por alguns desenvolvedores, Jarbas não recebe o mesmo reconhecimento por parte do líder. Ao contrário, este diz a Jarbas que tente fazer o seu trabalho de forma "mais comum", para que não fique muito evidente a diferença técnica dele perante outros colegas, especialmente aqueles que demonstram problemas de comprometimento, mas que são "amigos" do líder. A situação chega a tal ponto que Jarbas, numa conversa com um colega de trabalho, chora. É um choro de raiva, misturada com stress, frustração e sensação de estar fazendo papel de bobo. Isso porque ele vinha trabalhando tanto a ponto de cobrir a incompetência de alguns colegas, mas sem ter os méritos. Ele consegue suportar mais alguns meses, e então pede demissão. O projeto, como se podia esperar, entre em produção, mas completamente "capenga". Soube-se depois, que ainda levou uns dois anos para acertarem todos os problemas. Mas Jarbas já estava livre, e em outro emprego melhor, não mais precisava se preocupar com aquilo.

Pensando nessa história quase real é que eu vi a semelhança com os políticos. Há muitas equipes por aí "nos cascos" porque seus líderes não as representam na hora das dificuldades. Ficam de politicagem, jogando aquele jogo pra continuar nas suas posições. Creio que enquanto os organogramas tiverem gargalos, e a pessoa que está desempenhando esse papel condensador não representar realmente quem está respondendo para ela, vai ser sempre difícil fazer com que as coisas possam fluir harmonicamente e os times sejam coesos e engajados. Uma das coisas mais importantes em uma equipe é você olhar para o lado e ver que pode contar com o seu colega. Ter essa mesma visão a respeito do líder, é tão fundamental quanto.
 
Se você é líder ou gerente de equipe e parece não haver sintonia com quem responde para você, então você pode ser mais uma parte do problema. A dica é bem simples: se você assumiu esse papel de liderança formal e não tem o que é necessário para conquistar a confiança dos que te respondem, não tente garantir a sua posição através da “politicagem”, do “networking”, do “combinaço”. Não procure manter seu papel simplesmente conquistando o apoio de cima. Ao invés disso, passe a comprar as brigas de quem está abaixo de você ou a seu lado. Já é um passo bem simples e eficaz para que a equipe enxergue em você a representatividade esperada. Afinal, também faz parte da sua função comprar essas brigas e estar do lado das pessoas as quais você lidera.